Como Montar Entregas Próprias Sem Apps de Terceiros: Fique com 100% de Cada Pedido (2026)
Um pedido de 40 € numa app grande pode chegar à sua conta bancária como 26 €. A comida já lhe tinha custado 12 €. É isto o delivery de terceiros numa linha. As entregas próprias mudam essa conta.
Resposta curta: dá para montar entregas próprias em cerca de uma semana. Dê à entrega um horário só dela, desenhe um raio que consiga cobrir em 20 minutos, defina um pedido mínimo de 15 € a 20 € e cobre uma taxa de entrega a sério, de 2,50 € a 4,50 €. Depois escolha quem entrega — pessoal da casa dentro de um raio curto, ou uma rede de estafetas a pedido como o Uber Direct, a 4,50 € a 7 € por entrega, para tudo o que for mais longe. Ponha um único link de pedidos em todo o lado: Google, bio do Instagram, talões, embalagens. Fica com o valor todo do pedido menos 1% a 2% de processamento de cartão. Sem comissões, nunca.
A tecnologia é a parte fácil. As decisões chatas do dia a dia é que a maioria dos donos salta — e é exatamente aí que as entregas próprias correm mal.
O que são mesmo entregas próprias
Entregas próprias significa que o pedido chega a si, não a um marketplace. A sua ementa, os seus preços, o seu checkout, o seu cliente. Fica com o nome, o telemóvel, a morada e o histórico de pedidos. Numa app, nada disso é seu.
Há três formas de o fazer, e não são a mesma coisa:
- Estafetas seus. Pessoal da casa ou gente a tempo parcial com carro ou mota própria. É o mais barato por pedido num raio pequeno. O seguro e as escalas ficam consigo.
- Estafetas a pedido (marca branca). Recebe o pedido, uma rede de estafetas entrega em seu nome. Valor fixo por entrega, sem percentagem da comida. O Uber Direct e serviços semelhantes funcionam assim — à volta de 4,50 € a 7 € por entrega em 2026, consoante a distância, a cidade e a hora.
- Misto. Estafeta da casa até 3 km, rede de estafetas para tudo o que passar disso. É o que a maioria dos independentes espertos faz hoje.
Repare no que falta nas três: um marketplace a levar uma fatia da sua comida.
As contas a sério de um pedido de 40 €
Números valem mais que opiniões. O mesmo pedido, de três formas.
Num marketplace, escalão de 25% de comissão:
- Comissão: 10,00 €
- Processamento de pagamento (cerca de 2%): 0,80 €
- Embalagem: 2,00 €
- Risco de reembolso (2% em média): 0,80 €
- Fica com: cerca de 26,40 €
Entrega própria, estafeta da casa:
- Processamento de cartão (1,5% + 0,25 €): cerca de 0,85 €
- Embalagem: 2,00 €
- Custo do estafeta numa volta de 15 minutos (parte do salário + quilómetros): cerca de 4,00 €
- O cliente pagou 3 € de taxa de entrega, logo voltam 3 €
- Fica com: cerca de 36,15 €
Entrega própria, rede de estafetas a 5,90 €:
- Processamento de cartão: cerca de 0,85 €
- Embalagem: 2,00 €
- Estafeta: 5,90 €
- O cliente pagou 3,50 € de taxa de entrega, logo voltam 3,50 €
- Fica com: cerca de 34,75 €
São mais 8 € a 10 € por pedido. Com 20 entregas por dia, dá quase 65.000 € por ano. Dois cozinheiros a tempo inteiro, escondidos dentro da sua estrutura de comissões.
Tem piada nesta área — há donos que discutem 40 cêntimos numa caixa de alface e depois entregam 10 € por pedido sem pestanejar. Se quiser a conta completa do que as apps custam mesmo, fizemos esses números ao pormenor em a matemática real do delivery.
Passo 1: Dê à entrega um horário só dela
Não faça entregas sempre que a porta está aberta. É o erro número um.
A entrega precisa de um horário próprio, separado do horário da sala. A maior parte das cozinhas devia desligar as entregas na hora de ponta da sala e voltar a ligar depois. Um pedido que fica 18 minutos no passe porque a linha está cheia chega frio, e um pedido frio é um reembolso mais uma má avaliação.
Escolha as janelas fracas ou médias. Dias de semana, das 11:30 às 12:30 e das 18:30 às 20:00 funciona bem em muitas cozinhas. Desligue no sábado à noite, o seu turno mais cheio, até conseguir provar que a linha aguenta.
Passo 2: Desenhe um raio que consiga mesmo cobrir
Vinte minutos, porta a porta. É esse o limite honesto para comida quente.
No centro de Lisboa ou do Porto podem ser 2 km. Num concelho mais espalhado podem ser 6 km. Não defina por distância no mapa — defina por tempo de viagem à sua hora mais cheia, já a contar com estacionamento, elevadores e ruas de sentido único. E faça o percurso você mesmo, numa sexta-feira às 20:30, antes de prometer o que quer que seja.
Um raio grande demais é a razão mais comum para as entregas próprias falharem. A comida sai ótima e chega triste. O cliente culpa a comida, não a distância.
Passo 3: Defina um pedido mínimo e cumpra-o
Um pedido de 12 € com 3 € de taxa é negócio perdido. Não pode pagar 4 € a um estafeta para levar 12 € de comida e chamar-lhe negócio.
Defina um mínimo de 15 € a 20 €, consoante o seu ticket. Boa regra: o pedido mínimo deve ser cerca de 1,5 vezes o seu ticket médio normal na sala. Filtra as voltas que dão prejuízo e empurra as pessoas, sem barulho, para juntarem um acompanhamento ou uma bebida.
Mostre o mínimo bem visível na página da ementa. Ninguém gosta de encher o carrinho e só descobrir no fim.
Passo 4: Cobre uma taxa de entrega que pague a volta
Entrega grátis não é estratégia. É um desconto a que se esqueceu de dar nome.
- Estafetas seus: cobre 2,50 € a 3,50 €. O custo real por volta costuma andar nos 4 € a 6 € depois de contar salário e quilómetros, por isso está a dividir, não a cobrir tudo. Não faz mal — continua a ser muito mais barato do que uma comissão.
- Rede de estafetas: cobre 3,50 € a 4,50 € e absorva o resto. Os clientes já contam com uma taxa; veem uma em todas as apps.
- Escalões por distância funcionam. 2,50 € fixos até 3 km, 4,50 € acima disso. Simples, justo, e encaminha a procura para a sua zona rentável.
Uma coisa a confirmar: o IVA. Em Portugal, a refeição servida na sala, o take-away e a entrega nem sempre levam a mesma taxa, e a taxa de entrega cobrada à parte tem regras próprias. Fale com o seu contabilista antes de acertar os preços — nós explicámos essa divisão em IVA na restauração: sala, take-away e entrega.
Passo 5: Decida quem entrega
Estafetas seus fazem sentido quando tem volume constante, um raio curto e alguém para fazer as escalas. Duas coisas que tem mesmo de tratar:
- Seguro. Um seguro automóvel particular normalmente não cobre condução ao serviço da empresa. Precisa de estender a apólice ao uso profissional e garantir o seguro de acidentes de trabalho para quem conduz. Ligue ao seu mediador antes da primeira entrega, não depois do primeiro acidente.
- Vínculo. Se o estafeta é trabalhador por conta de outrem ou prestador de serviços a recibo verde não é uma escolha livre — depende do Código do Trabalho, e a presunção de laboralidade é apertada. Pergunte a um advogado de trabalho ou ao seu contabilista. Errar aqui sai caro.
Pague também os quilómetros. Em viatura própria, o valor por quilómetro isento de imposto anda à volta dos 0,40 € em Portugal. Confirme o valor deste ano — é atualizado.
Redes de estafetas fazem sentido quando o volume é irregular, o raio é largo, ou não quer gerir uma frota. Assina diretamente com o serviço de estafetas; é uma conta separada da app de marketplace, mesmo quando a empresa é a mesma. A entrega chega em seu nome, e o pedido nunca passa pelo marketplace deles.
Comece pelas redes de estafetas. Passe para estafetas seus mais tarde, quando o volume o justificar.
Passo 6: Faça uma ementa de entrega, não uma cópia da ementa da sala
Há pratos que não viajam. Tudo o que seja estaladiço, tudo o que leve espuma, tudo o que é empratado para se comer em 90 segundos — deixe de fora.
- Corte a ementa para os 15 a 25 pratos que aguentam 20 minutos dentro de uma caixa.
- Ponha os pratos de entrega 10% a 15% acima do preço de sala. A embalagem e o tempo do estafeta são custos reais. Os clientes aceitam.
- Fotografe tudo. A entrega é uma compra feita pelos olhos — boas fotos na ementa sobem o valor do pedido mais do que qualquer desconto.
- Faça um pedido a si mesmo. Peça, espere 20 minutos e coma. Só esse teste vai mudar a sua ementa.
Passo 7: Tenha um link e ponha-o em todo o lado
É aqui que a maioria dos donos perde. Montam os pedidos online e depois escondem-nos.
Precisa de um link curto que abra a sua ementa e receba o pedido. Depois vai para:
- O seu Perfil de Empresa no Google. Adicione-o como link de pedidos e link da ementa. É de longe a sua maior fonte de tráfego grátis.
- Bio do Instagram e do TikTok. Um link, nada de PDF.
- Um autocolante com QR code em cada saco de take-away e em cada caixa de entrega. A aquisição de clientes mais barata da restauração.
- O fundo de cada talão.
- Um cavalete na mesa e a montra. Os clientes da sala são os seus melhores clientes de entrega no futuro.
Não precisa de um site completo para isto. Uma ementa digital com link próprio faz o trabalho. Plataformas grátis como o Tabres deixam-no ligar as entregas por filial, com horário próprio, distância máxima, pedido mínimo e taxa — sem comissões e sem mensalidade. Se está na dúvida se um site a sério ainda compensa, comparámos as opções em alternativas grátis a um site para restaurante.
Passo 8: Traga de volta os clientes das apps
As apps têm os seus clientes. Vá buscá-los.
- Um cartão dentro de cada entrega feita pela app. "Da próxima peça direto — 15% de desconto, a mesma cozinha, os mesmos estafetas." Uma linha, chega.
- Uma oferta a sério, não um código que ninguém escreve. Um QR code que abre a ementa já com o desconto aplicado converte muito melhor.
- Nunca pague promoções dentro da app. Já está a pagar 25%. Juntar um "gaste 30 €, poupe 6 €" por cima é pagar pelo privilégio de perder dinheiro.
- Tenha paciência. Uma meta realista é passar 20% a 30% do volume das apps para o direto em seis meses. Quem carrega nos cartões dentro das embalagens chega lá mais depressa.
Mantenha as apps para quem ainda não o conhece. Só pare de as tratar como o seu canal principal. Marketplaces para caras novas, entregas próprias para os clientes que voltam — é essa a divisão que funciona em 2026.
Passo 9: Veja quatro números
Todas as segundas-feiras, veja isto:
- Pedidos diretos como percentagem do total de entregas. É este o número que conta. Se não está a subir, o seu link não está suficientemente à vista.
- Ticket médio de entrega. Deve ser mais alto do que o ticket da sala. Se não é, o seu mínimo está baixo demais.
- Tempo médio de entrega, porta a porta. Acima de 30 minutos, tem um problema de raio ou de tempos de cozinha.
- Taxa de repetição. Quantos clientes diretos voltaram a pedir em 60 dias? Abaixo de 25% quer dizer que a comida não está a viajar bem.
Dez minutos por semana nestes números valem mais do que uma análise mensal que ninguém faz. Se quiser uma lista mais completa, juntámos os KPIs que vale a pena ver todas as segundas-feiras de manhã.
Erros que matam as entregas próprias
- Raio grande demais. Comida fria, reembolsos, avaliações de uma estrela. Encolha-o.
- Sem orçamento para embalagem. Uma caixa de 30 cêntimos estraga um prato de 16 €. Gaste o dinheiro em caixas com respiro e selos de segurança.
- Sem plano para atender o telefone. Os pedidos diretos continuam a gerar chamadas. Alguém tem de atender.
- Morada mal escrita. Recolha rua, número, andar e uma nota para o estafeta. "Porta azul, campainha avariada" poupa dez minutos.
- Lançar em silêncio. Se não disser a ninguém, não vem ninguém. Publique, cole autocolantes, imprima, diga em cada mesa durante duas semanas.
- Desistir no segundo mês. Os pedidos diretos acumulam. Os clientes que converte em março ainda estão a pedir em outubro.
Perguntas frequentes sobre entregas próprias
Tenho de sair de vez das apps de entregas? Não, e provavelmente não devia. Mantenha-as para dar a conhecer a casa e use as entregas próprias para os clientes que voltam. A maioria dos independentes que faz isto bem mantém as duas e vai mudando a mistura com o tempo.
Quanto custa montar entregas próprias? Quase nada, se usar uma plataforma de pedidos grátis. Os custos reais são o processamento de cartão, entre 1% e 2%, a embalagem, e o salário do estafeta ou um valor fixo por entrega.
Posso usar os estafetas das apps sem estar na app? Sim. O Uber Direct e serviços semelhantes são redes de estafetas que se contratam à parte. O pedido continua a ser seu; só aluga o estafeta. Valor fixo, sem comissão sobre a comida.
Que taxa de entrega devo cobrar? Entre 2,50 € e 4,50 €, consoante a distância e quem entrega. Entrega grátis só faz sentido acima de um mínimo alto, tipo 50 €.
O meu seguro automóvel particular chega para entregas? Quase de certeza que não. As apólices particulares costumam excluir o uso profissional. Fale com o seu mediador de seguros sobre estender a cobertura antes de começar.
As entregas próprias não são bem um projeto de tecnologia. São um conjunto de decisões sobre distância, tempo e quanto vale mesmo uma entrega para si. Acerte no raio, seja firme no mínimo e cobre uma taxa a sério, e o resto é repetição.
Comece pequeno. Três quilómetros, 20 pratos, as suas horas fracas, um link bem à vista. Prove que funciona durante um mês e depois alargue. A comissão que deixa de pagar não aparece em manchete — aparece em silêncio, todas as sextas-feiras, no número lá em baixo no fim do relatório.