O horário partido na restauração não poupa nada em salários, porque paga as mesmas 40 horas por semana que os horários desfasados. O que o horário partido compra é ter as suas melhores pessoas no almoço e no jantar. O custo é um dia de 10 horas por 8 horas pagas. Uma pausa de mais de 2 horas só é legal se o contrato coletivo, o acordo do setor entre patrões e sindicatos, a permitir.
Se arrendar uma casa para a equipa descansar, deixe as pessoas escolher entre a casa e um aumento. Para quatro pessoas, 700 € de renda por mês custam quase o mesmo que 120 € a mais no salário de cada uma.
O que o horário partido na restauração poupa mesmo
Um horário partido é um dia de trabalho com uma pausa longa e não paga a meio, normalmente entre o almoço e o jantar. As pessoas registam a saída, vão embora e voltam para o jantar.
Este é o exemplo usado do princípio ao fim (Portugal, 2026). Um restaurante de bairro abre cinco dias por semana e tem quatro pessoas a tempo inteiro, cada uma com 1.040 € brutos por mês. Isso dá 6 € por hora: 1.040 € × 12, a dividir por 52 semanas × 40 horas.
Cada pessoa trabalha das 12h às 22h, com uma pausa não paga de 2 horas. Duas saem das 15h às 17h e duas das 17h às 19h. Nesse intervalo, pessoas em part-time preparam e limpam. São 8 horas pagas por dia e 40 por semana.
O cálculo habitual é este: 4 pessoas × 2 horas × 5 dias são 40 horas não pagas por semana. A 6 €, são 240 € por semana, ou 1.040 € por mês (o valor semanal × 52 ÷ 12).
Esse cálculo compara o horário partido com pagar as 10 horas às quatro pessoas. Ninguém faria esse horário. São 50 horas por semana a cada pessoa, e as 2 horas a mais por dia são horas extra, o trabalho fora do horário normal. Por lei, pagam mais 25% e mais 37,5%.
Pagar o dia todo custaria pelo menos 1.365 € por mês a mais, não 1.040 €. Numa empresa com menos de 50 trabalhadores, o limite é de 175 horas extra por ano. Este horário chegava lá em menos de 18 semanas.
A comparação justa é com o horário que usaria mesmo em vez deste: horários desfasados. Cada pessoa tem um horário seguido, com 1 hora de pausa, mas as entradas e as saídas são a horas diferentes. Duas trabalham das 12h às 21h e duas das 13h às 22h. A pausa é de 1 hora porque, em Portugal, a lei só deixa uma pausa mais curta em casos especiais (veja as regras abaixo).
Também são 8 horas pagas por dia, por isso os salários são os mesmos: 4.160 € brutos por mês para os quatro, 14 vezes por ano. Comparado com horários desfasados, o horário partido poupa 0 € em salários. O que muda é quem está a trabalhar e quando. O horário partido tira duas pessoas da tarde calma e põe-nas na última hora do jantar.
O custo real cai sobre a sua equipa. Um dia partido dura 10 horas do princípio ao fim, e um dia desfasado dura 9. São mais 5 horas por semana no trabalho ou perto dele, para cada pessoa. Para quatro pessoas, são 20 horas por semana, ou 520 € por mês de tempo, a 6 € por hora.
Quatro formas de cobrir o almoço e o jantar
As mesmas quatro pessoas a tempo inteiro, os mesmos 4.160 € brutos por mês em salários. A tabela mostra o que cada plano junta a isso.
| Plano | Custo extra por mês | Dia de cada pessoa | Pessoas a tempo inteiro das 21h às 22h |
|---|---|---|---|
| Horário partido e um T1 para a equipa | 700 € de renda | 10 horas | 4 |
| Horário partido e um aumento de 120 € por mês | 693 € | 10 horas | 4 |
| Horários desfasados e uma pessoa em part-time das 20h às 22h | 332 € | 9 horas | 2, mais o part-time |
| Horários desfasados e uma quinta pessoa a tempo inteiro | 1.501,50 € | 9 horas | 3 |
O aumento e os novos salários contam com os 14 pagamentos do ano e com a TSU, os 23,75% de Segurança Social da empresa. A pessoa em part-time trabalha 10 horas por semana e recebe 230 € brutos por mês: o salário mínimo de 920 € em proporção.
Qual escolher:
- Horários desfasados e uma pessoa em part-time, se essa pessoa consegue fazer o fim do jantar com duas pessoas a tempo inteiro. É o mais barato, e o dia de ninguém passa das 9 horas.
- Um horário partido, se o jantar corre mal sem as suas quatro melhores pessoas, e cada uma lhe diz que sim em privado. Depois, deixe-as escolher entre o T1 e o aumento.
- Uma quinta pessoa a tempo inteiro, se hoje já cobre as baixas com pessoas a saltar a pausa. Em Portugal, saltar a pausa é ilegal, porque ninguém pode trabalhar mais de 5 horas seguidas. E cada pausa saltada são 2 horas extra, 15,75 € por pessoa.
Se uma das refeições traz a maior parte das vendas, o horário partido não tem nada para cobrir. Faça os horários desfasados à volta dessa refeição, com um sistema simples para os horários da semana.
Quem gosta do horário partido, e como saber
O horário partido serve a quem não tem ninguém à espera em casa e a quem gosta de uma sesta a meio do dia. Também serve a quem vive longe demais para ir a casa. Quem vive a 50 minutos de autocarro passa quase toda a pausa de 2 horas no caminho, se for a casa e voltar.
É duro para pais e mães, e para quem tem um segundo emprego ou aulas. Todos fazem a abertura e o fecho, por isso ninguém chega cedo a casa. Duas horas não chegam para um turno noutro emprego.
Quando paga melhor do que toda a gente numa vila pequena, as pessoas não lhe dizem que detestam o horário. Se as outras casas da zona pagam o salário mínimo, 920 € em 2026, sair custa-lhes 120 € por mês. Por isso dizem que sim e ficam caladas.
O que as pessoas escolhem diz-lhe mais do que o que dizem:
- Pergunte em privado, em papel e sem nomes: "Se pagassem o mesmo, escolhia o horário partido ou um horário seguido de 9 horas, com 1 hora de pausa?"
- Melhor ainda, dê a escolha durante um mês. Passe dois dos quatro lugares para horários desfasados e deixe as pessoas escolher.
- Veja quem usa mesmo o sítio de descanso, quem pede menos dias e o que diz quem se despede, na última semana.
Um T1 para a equipa ou um aumento de 120 €
Um T1 perto do restaurante, a 700 € por mês com contas incluídas, custa-lhe 1,01 € por cada hora paga aos quatro. São 700 € ÷ 693 horas pagas por mês. Um aumento de 120 € por mês a cada um custa-lhe quase o mesmo: 693 € por mês, com os 14 pagamentos e a TSU.
A diferença está em quem decide como o dinheiro é usado. O aumento vai para casa com todos, incluindo quem passa a pausa no ginásio ou no carro. O T1 só ajuda quem lá vai. Algumas pessoas também vão pensar que prefere gastar dinheiro numa casa do que no salário delas.
Por isso, ponha as duas opções em cima da mesa e deixe os quatro votar em privado. A escolha é ficar com o T1, ou devolvê-lo e somar 120 € por mês ao salário de cada um. O seu custo fica quase igual nos dois casos.
Regras da casa, se ficar com o T1
Há duas pessoas de pausa ao mesmo tempo, e a casa tem uma cama, um sofá e um duche. Escreva as regras numa página, cole-a por dentro da porta e peça a todos que a assinem:
- Ir lá é escolha de cada um. Ninguém tem problemas por passar a pausa noutro sítio.
- Ninguém é chamado mais cedo. Se o dono precisar de alguém, paga-lhe a partir do minuto em que liga.
- Sem álcool, sem drogas e sem visitas, tal como no trabalho.
- Uma pessoa fica com a cama e a outra com o sofá, e trocam todas as semanas.
- Deixe a casa como a encontrou: loiça lavada, toalhas para lavar e lençóis mudados num dia fixo.
- Não há câmaras lá dentro, e o dono bate à porta antes de entrar.
- É só para as pausas da equipa. O dono e os amigos dele não a usam.
A empresa paga a casa, por isso ela conta como parte do trabalho. As suas regras sobre como a equipa se trata também valem lá. Uma queixa sobre algo que lá aconteceu é sua para resolver, tal como uma queixa sobre a cozinha.
Antes da primeira pausa lá, faça três coisas:
- Diga ao senhorio para que é a casa. Um contrato de arrendamento para habitação diz, em regra, que a casa é só para viver.
- Pergunte à sua seguradora se o seguro de acidentes de trabalho cobre alguém que se magoe lá, ou no caminho.
- Pergunte ao seu contabilista certificado como registar a renda. Pergunte também se a casa conta como rendimento em espécie, ou seja, um benefício que paga IRS como se fosse salário.
Regras em Portugal para pausas e horário partido (2026)
Estas são as regras do Código do Trabalho em 2026. As regras mudam, por isso confirme-as na ACT, a Autoridade para as Condições do Trabalho.
O intervalo de descanso
Um dia de 8 horas tem de ter uma pausa, a que a lei chama intervalo de descanso. As regras são estas (Código do Trabalho, artigos 197.º e 213.º):
- A pausa dura entre 1 e 2 horas, e ninguém trabalha mais de 5 horas seguidas. Só o contrato coletivo, ou uma autorização da ACT, muda estes números.
- Uma pausa curta que dá durante o trabalho, como 10 minutos para um café, conta como tempo de trabalho e é paga.
- A pausa só não é paga se a pessoa estiver mesmo livre. Por isso, antes da pausa, diga-lhe que pode sair e a hora exata a que volta.
- Se ela tiver de ficar no restaurante ou perto dele, para poder ser chamada, a pausa conta como tempo de trabalho e é paga.
Um T1 do outro lado da rua não é problema, se ir lá for escolha de cada um. Se conta com as pessoas lá para as poder chamar, a pausa começa a parecer tempo de trabalho.
Pausas de mais de 2 horas
Muitos restaurantes fazem pausas de 3 ou 4 horas, por exemplo das 15h às 19h. O Código do Trabalho só deixa a pausa passar das 2 horas se o contrato coletivo o permitir. O contrato coletivo é o acordo entre patrões e sindicatos que fixa regras e salários mínimos para o setor.
Um contrato coletivo pode valer para a sua casa mesmo que não seja sócio da associação que o assinou. Pergunte ao seu contabilista qual se aplica. Depois, leia a cláusula sobre o intervalo de descanso e veja se paga algum valor extra pelo horário partido.
Cuidado também com as 5 horas seguidas. No exemplo, quem entra às 12h e sai para a pausa às 17h trabalha exatamente 5 horas. Se entrar às 11h30 para preparar a sala, já passa do limite, por isso mude a pausa dessa pessoa para mais cedo.
Trabalhar mais de 5 horas seguidas, sem o contrato coletivo ou a ACT o permitirem, é uma contraordenação grave. Quer dizer que a ACT pode multar a empresa (artigo 213.º).
Horas extra
O horário normal tem no máximo 8 horas por dia e 40 por semana (artigo 203.º). A pausa não paga não conta, por isso 8 horas pagas × 5 dias são exatamente 40.
O trabalho fora do horário é trabalho suplementar, as chamadas horas extra. Num dia útil, a primeira hora extra do dia paga mais 25% e as seguintes mais 37,5%. Passadas 100 horas extra no ano, pagam mais 50% e mais 75% (artigo 268.º).
Numa empresa com menos de 50 trabalhadores, cada pessoa faz no máximo 2 horas extra por dia e 175 por ano (artigo 228.º). A 6 € por hora, cada pausa saltada soma 2 horas extra, ou 15,75 €.
Descanso entre dois dias
Entre dois dias de trabalho, cada pessoa tem de ter pelo menos 11 horas seguidas de descanso (artigo 214.º). O horário do exemplo acaba às 22h e começa às 12h do dia seguinte, o que deixa 14 horas.
Se alguém fecha às 23h e abre às 9h do dia seguinte, descansa só 10 horas. Não chega, por isso essa pessoa só pode entrar às 10h.
Mudar o horário
O horário de cada pessoa está no mapa de horário de trabalho, a folha afixada num sítio que toda a equipa vê (artigo 216.º). Para passar a um horário partido, fale antes com as pessoas. Depois, afixe o novo mapa 7 dias antes, ou 3 dias numa microempresa, com menos de 10 trabalhadores (artigo 217.º).
Um horário combinado com a pessoa no contrato só muda com o acordo dela. Um pai ou uma mãe com um filho com menos de 12 anos tem direito a pedir um horário flexível (artigo 56.º). Confirme estas regras e o seu contrato coletivo com a ACT antes de afixar um horário partido.
Faça isto esta semana
- Compare o seu horário partido com horários desfasados, não com pagar as 10 horas todas.
- Pergunte às suas pessoas a tempo inteiro, em privado e em papel: horário partido ou horário seguido, se pagassem o mesmo.
- Ponha o T1 e o aumento de 120 € lado a lado, e deixe-as votar.
- Escreva as regras da pausa: quando podem sair, a que horas voltam e que paga a partir do minuto em que chama alguém mais cedo.
- Leia a cláusula da pausa no seu contrato coletivo. Confirme as 5 horas seguidas e as 11 horas de descanso antes de afixar o próximo mapa de horário.